carolina 3Carolina Angélica


 No escuro da noite

Hora de dormir.  Tudo em ordem.  Cama aconchegante, quarto escuro.  E o sono gostoso, restaurador.  Bom demais. Lá pelo sétimo sono, o inesperado.

O telefone toca.   Acendo a luz e confirmo.  Meia noite e meia. Já notaram que, quando  se está dormindo, o toque do telefone é mais alto.  Parece que colocaram um microfone.  Escandaloso.  Pulo da cama.     “É do disk cerveja? ” “Não; não é do disk cerveja. ” Minha voz de travesseiro responde à voz meio grogue, que vem sei lá de onde.    “Desculpa dona, foi mal. ” Desligo o telefone e ainda suspiro aliviada. “Graças a Deus. Podia ser uma notícia ruim. ”

De novo o sono.  Durmo, apesar de…  De novo o telefone  mais alto do que nunca, no escuro de breu. Confiro o relógio.  Cinco e meia da manhã.  “É do moto-táxi? ”   “Não; não é do moto-táxi. ” Tento dormir novamente. Mas o dia já vem apontando. O sol começa a clarear tudo. A passarinhada começa a piar no quintal. As maritacas barulhentas se esqueceram de que é domingo de manhã e começam o berreiro. Durma-se com um barulho desses. E os meus planos de levantar mais tarde, no domingo, foram por água abaixo. Mas não está chovendo. Ao contrário. O sol lá fora, de um clarear estridente. Uma manhã luminosa. Desisto de dormir de novo. E vou caminhar. Bom demais. O sol, o brilho da manhã, o vento leve no rosto. Presente de Deus!

Semana passando. “No próximo fim de semana, tiro o atraso e durmo até mais tarde”, pensei. Quando dava aula de manhã, sonhava com o dia em que acordaria sem despertador. Acordar no devagar, aos poucos, dormir de novo, acordar espreguiçando, até lá pelas dez da manhã…

Fim de semana de novo.  Sono pesado.  Escuridão.  E o telefone me acordando aos solavancos.   “É do disk cerveja? ”.    E mais de madrugada: “É do moto-táxi? ” De tanto ouvir esses disparates, perdi o humor e o bom senso.   E mudei o tom: “Pode esperar que a cerveja já está chegando aí. Espera na porta…”     E de outra feita: “O endereço, por favor, que  o moto–taxista já está saindo. Cinco minutos…” Devem estar esperando a cerveja geladinha e o moto-taxista até hoje…

Houve uma   época em que confundiam o meu telefone com o do IPSEMG ou da Matriz.     De tanto ouvir: “desculpe, foi engano”, passei a dar informações sobre horários de missa ou médicos e dentistas credenciados pelo IPSEMG.

Voltando aos episódios noturnos.   Meu vizinho cria galinhas.  E, lógico, galos também.   E esses galos da cidade, fazem uma confusão danada.  Acho que, pela claridade dos postes na rua, eles misturam tudo. Cantam a noite inteira.  Ninguém ensinou a eles que aquilo lá são lâmpadas e que o dia ainda não está nascendo.  Um verdadeiro caos a cabeça desses bichos    urbanos.  Trocam tudo e abrem um berreiro a qualquer hora.      Haja ouvido!

Somando o disk cerveja, o moto táxi, os bichos de canto noturno, os finais de semana com noites bem dormidas e as manhãs de domingo espichadas até dez horas passaram longe.   Reclamar a quem?!   Bicho não pensa.  Então, aqueles famosos ímãs de geladeira que todo mundo usa com telefones de moto-táxi, disk cerveja, entregas de gás, e sei lá mais o quê, lá pelas tantas cervejas, se embaralham e a confusão vem em forma de telefone tocando estridente a qualquer hora…

Mas, mesmo assim, ainda respiro aliviada.   Melhor acordar com o telefone tocando na noite escura e ser confundida com tais modalidades de comércio do que ser vítima de uma notícia desagradável, na calada da noite.   Deus me preserve de tal!…

E que o Anjo da Guarda não cochile e continue guardando meus filhos e os filhos de tantos pais por este mundão afora.

         carolinaangelicaguimaraes@bol.com.br