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Onofre Ribeiro

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Nós com Lula, Lula sem nós

Em: 09/04/2018 às 08:21h por Onofre RIbeiro

 

De sexta-feira passada até um futuro imprevisível o Brasil vai respirar um clima pesado de revisionismo. Revisionismo é o ato de se reanalisar algo (por exemplo, um fato, doutrina, valor, livro etc.), gerando modificações em relação à interpretação original que se tinha do objeto analisado.

O mandato de prisão do ex-presidente Lula põe em xeque nos muitos Brasis contraditórios. Todos merecedores de um amplo revisionismo. Não discuto aqui nenhum mérito legal ou político de Lula e nem dos fatos que determinaram que se expedisse a sua prisão. A maioria está sujeita a mudanças profundas dentro de um clima de violento revisionismo que vem aos poucos se instalando no Brasil.

O discurso histórico da esquerda brasileira, hoje casado em comunhão de bens com um decadente partido político, o Partido dos Trabalhadores, chega ao fim da estrada de poder que durou 13 anos no comando do país. Por detrás tem a ideologia da esquerda misturada com uma série de doutrinas ideológicas e com uma prática delituosa de poder que em algum momento destrambelhou pra manutenção a qualquer custo.

A ética, ainda que seja apenas filosófica, mantém vivas convicções da esquerda. Sem ela perde-se a separação entre as fronteiras cínicas do poder. O que farão as esquerdas diante da prisão do seu único ícone, o ex-presidente Lula? O que farão os movimentos sociais, as centrais sindicais e os militantes partidários? Sem o discurso ideológico, partirão certamente pro suicídio do discurso da vitimização. Morre muitas vezes quem morre se sentindo vítima.

Tudo isso significa que o revisionismo que nasce neste instante na sua face de violência, certamente invadirá as ruas, a mídia, as instituições públicas aparelhadas, e as armas responderão ao Direito, à ordem pública, à falta de convicções filosóficas.

Os revisionismos são muito didáticos. Pela violência implícita eles suscitam o reflexionismo como resposta construtiva ao caos.

O Brasil entrou no caos imprevisível. Pode ser que haja derramamento de sangue, pode ser que não. Mas resultará na morte do fatalismo ideológico da esquerda atual pra renascer numa reflexão numa composição de re-construção de uma civilização nova neste país chamado Brasil. Com ou sem dor, será tudo o que que acontecer!


PT x PT – 1

Compreender o fim do ciclo do Partido dos Trabalhadores no governo do país requer conhecer um pouco da sua história. O PT cai derrubado por si mesmo, o único inimigo real que compreendia as engrenagens das suas entranhas. Partido orgânico, nascido com propósito claro em 1980 trazia um conteúdo ideológico das esquerdas para vingar depois do fim do regime militar, que acabaria em 1985. Os pais foram a Igreja Católica, acadêmicos de esquerda, o general Golbery do Couto e Silva, do governo militar, mirando no arquiinimigo Leonel Brizola. Deputados e políticos de esquerda se abrigaram, assim como os sindicatos de metalúrgicos da época, sediados em São Paulo (Grande ABCD).

Em 2002 disputou a presidência e venceu. Negociações anti-esquerdistas sob pena de não assumir. Em 2003, a descoberta de que não ter maioria no Congresso exigia a compra de votos. Mas isso é ciência política. Em dezembro o governo faz mini-reforma da previdência e contraria os interesses dos acadêmicos que abandonaram o governo, matando a capacidade de formular o seu pensamento político. Em seguida sem orientação filosófica, a compra de votos saiu do figurino político e caiu na vala dos negócios. Estoura o Mensalão do PT. Isolado, Lula, descarta os melhores quadros do Partido dos Trabalhadores pra sobreviver como presidente. Caíram Antonio Pallocci, José Dirceu, João Paulo, Cunha, saíram do PT as senadoras Heloisa Helena e Marina Silva. A Igreja Católica abandonou o governo e o partido quando este saiu dos trilhos traçados em 1980 para uma linha de ética transformadora do país. Em duas cartadas perdeu o pensamento político acadêmico e a sua tropa de choque de primeira linha.

No cenário do partido e do governo apareceram figuras do baixo clero no Estado-Maior, tipo Dilma, Guido Mantega, Gilberto Carvalho, Jacques Wagner, Ricardo Berzoini, Rui Falcão e muitos parlamentares também do baixo clero subiram ao paraíso do comando partidário e do governo. Sem cultura política e sem conhecimento de gestão e de macropolítica, o governo Lula em 2005, agarrou-se no programa social Bolsa Família, adaptado do “Brasil Solidário”, da antropóloga Ruth Cardoso. Sem o Mensalão, mas tendo que administrar um cenário político cada vez mais desfavorável, o governo isolou-se em diversos programas sociais e em trechos da ideologia da esquerda que prega a separação das classes sociais. Uma forma de obter apoio seguro como mercadoria política para momentos de dificuldades futuras. Continua amanhã.

16/05/2016